Somos Tão Jovens, capítulo dois:
Cena
1. Ginásio Municipal – Tarde
No ginásio, Beto e Elis estão cara a cara.
Beto: Eu aposto que qualquer uma daquela
quadra daria o mundo pra estar no seu lugar. Ou você perde tempo com esse
namorico, ou vai lá e vence essa partida. A escolha tá nas suas mãos. –
ele segura no braço de Elis.
Olívia acompanha tudo.
Elis, desconsertada: Que isso, Beto? Você nunca falou
comigo nesse tom...
Beto: Porque nunca foi preciso. Porque você sempre foi
uma menina determinada, porque você sempre soube o que queria. Mas agora, agora
eu sinceramente...
Olívia, os interrompe, tentando arbitrar a discussão:
Deixa, Beto, vocês não precisam prolongar essa discussão – ela se vira para a
jogadora – Minha filha, tenta entender que essa não é mais uma simples partida
pra você. Pode ser significativa, pode te levar pra as olimpíadas, Elis!
Elis não cessa: Desculpa, mãe. Mas antes de tentar
entender todo mundo, eu preciso entender o que eu sinto. E isso eu só vou
conseguir falando com o Guilherme.
Beto persiste: Não! Pelo amor de Deus, menina, você tá
ouvindo o que você tá falando? Você vai desperdiçar uma chance de classificação
pra um mundial de vôlei só por um namorico? É isso mesmo?
Elis tira seu braço das mãos do treinador, o encarando:
Eu não consigo jogar, Beto. Eu não consigo focar em nenhuma outra coisa que não
seja o Guilherme, o meu namorado.
Agora, por favor, sai da minha frente.
Beto: Elis, eu vou te dar mais uma chance. Entra naquela
quadra, saca aquela bola, VENCE AQUELE JOGO!
Elis retruca: Você mesmo não disse que eu sempre soube o
que queria? Agora, o que eu quero é ver o meu namorado – ela se vira – Dá
licença.
Beto faz uma última tentativa, em vão: Elis, volta aqui!
Elis!
Mas a garota não dá meia volta. Ela corre para fora do
ginásio.
Pouco
tempo depois...
Cena
2. Apartamento de Beto – Tarde
Beto entra frustrado na cozinha. Nela, está seu filho, o
Zeca.
Beto puxa uma cadeira, bruscamente, onde se senta: Olha,
ainda bem que eu sou muito bem remunerado pelo que eu faço. Porque ter que
aturar adolescente imatura, que se acha dona do mundo, só por um preço muito
alto.
Zeca está sentado à mesa, lanchando: Quê que houve dessa
vez, pai? Perdeu o jogo?
Beto: Não, eu não perdi nada. Quem perdeu foi a tosca da
Elis, que além de uma ótima oportunidade, perdeu a sanidade. Francamente, eu
nunca imaginei que ela fosse fazer algo do tipo.
Zeca, tentando desviar do assunto: Poxa, pai. Na verdade
eu nem o que tá acontecendo, mas você não acha que está exagerando?
Beto é rude: Exagerando? É isso mesmo, Zeca? Quer dizer
que eu tenho um defensor da garota dentro de casa e não sabia? Eu sei que você
gosta dela, e não me importo. Mas eu não tolero que você do lado de...
Zeca o interrompe: Pai, eu só queria te ajudar. Queria te
ouvir, quem sabe assim você sufocasse um pouco essa raiva toda. Mas tá
impossível. Eu é que não aceito que você atire todas essas pedras em mim como
se eu fosse o culpado – ele se levanta – A Elis fez sabe-se lá o quê, só que eu
não tenho nada a ver com isso. Agora, eu prefiro subir pro meu quarto.
E segue o caminho para fora do cômodo.
Beto: Isso! Vai lá! Vai lá pro seu refúgio dos contos de
fadas, eu não esperava mesmo que você aguentasse ouvir a verdade.
O treinador balança a cabeça, ainda raivoso.
Cena
3. Casa de Olívia e Maurício – Sala Principal – Ainda pela tarde
Maurício se lembra da conversa que teve há poucos
minutos, no telefone.
Marina:
A gente se amava, Maurício. Se não for pela nossa filha, faz isso por mim!
Maurício,
rancoroso: Por você?! Pela mulher que me escondeu uma filha, durante todos
esses anos, e que agora vem, de uma hora pra outra, me dizer que ela existe, e
que tá doente?
Marina
suplica: Não olha pra doença, Maurício. Olha pra tanta coisa linda que a gente
viveu, olha pra tanta coisa boa que ainda pode acontecer se você aceitar ceder
esse transplante.
Maurício:
É, você só precisa de mim nos momentos difíceis, não é? Sempre foi assim.
Agora, eu não pude ver a filha crescer. Você ficou presa nesse silêncio há
tanto tempo... Por que agora foi diferente? Por que você não tem mais a quem
recorrer?
Marina
chora: PORQUE AGORA A NOSSA FILHA TÁ COM CÂNCER, MAURÍCIO! Meu Deus, eu tenho
mais à que apelar. Você é minha última esperança... Eu só te peço um pouco de
compaixão.
Maurício:
Eu vou pensar. Mas não por você, não por alguém que pede compaixão sendo que
nunca teve. Eu vou pensar pela nossa filha, porque ela não tem culpa de quem
você é, das escolhas que você tomou.
Ele
desliga o telefone – fim da lembrança.
Os pensamentos de Maurício, que encara um dos objetos da
estante, enquanto está sentado no sofá, são interrompidos por sua esposa, que
chega.
Olívia: Maurício, meu amor – ela se senta na borda do
sofá – Você parece tão preocupado... E isso não é de hoje. A gente sempre foi
franco um com o outro. Nunca escondeu nenhum tipo de segredo... Por que quebrar
esse pacto agora?
Maurício, surpreso: Eu não tô escondendo ou rompendo
nada, Olívia. Deve ser impressão sua.
Olívia desconfia: Mesmo?
Maurício ri, sem graça, e inventa: Claro, é só uma pilha
de assunto chato do trabalho. Mas eu logo resolvo isso. Agora me fala do jogo.
Cadê a fita que eu te pedi?
Olívia balança a cabeça negativamente: Eu juro que não
sei que motivo eu te dei pra não confiar mais em mim. Mas assim que você se
sentir preparado pra se libertar desse segredo, eu também vou estar pronta pra
ouvir – ela se levanta – Agora eu vou tomar um banho. Sobre o jogo, a gente
pode falar depois.
E ela sai da sala. Maurício suspira, ainda pensativo.
Cena
4. Hospital São Vicente – Quarto de Guilherme – Fim de Tarde
Alguém bate na porta.
Guilherme vibra: Elis... Meu amor, eu não acredito que
você veio.
Cadu entra no quarto: Poxa, cara. Eu sei que a gente é
bem amigo, mas... Meu amor é um pouco
demais. Você não acha?
Guilherme não entra na brincadeira: Olha, eu não tô com
ânimo pra piada.
Cadu se senta na cadeira próxima da cama: Que isso? Eu só
vim aqui te visitar, não precisa ficar na defensiva. Mas vai, me diz. Qual é o
motivo da rebeldia? Espera aí, antes
me deixa adivinhar... Elis?
A jogadora de vôlei, que estava prestes a entrar no
quarto, decide parar assim que ouve seu nome.
Guilherme desconversa: Eu sei que não estou me saindo como
a melhor das companhias, mas eu juro que tento...
Cadu: Nem começa a mudar de assunto, Guilherme. Me fala
de uma vez o que é que aconteceu entre você e a Elis.
Guilherme confidencia: A verdade é que eu desaponto muito
com ela. Aí eu nem sei se vale a pena investir em empresa falida.
Cadu: Você tá dando por vencida uma guerra que mal
começou... Mas se você puder ir direto ao ponto...
Guilherme: A verdadeira paixão dela é o vôlei, entende?
Eu não vou negar que ela tenta, mas enquanto uma parte dela quer estar aqui,
comigo, a outra tá sempre avisando que tem campeonato amanhã, partida na semana
que vem... Nem sei como eu pensei que ela viesse, eu sou sempre a segunda opção
na vida da Elis. O plano B, sabe?
Cadu encara o amigo: Não sei, eu juro que não. E você
também. Poxa, Gui, é um campeonato importante, que pode classificar ela pra as
Olimpíadas!
Guilherme: Disso eu sei. Aliás, disso eu já cansei de
saber. Falando sério, tudo na vida da Elis é importante, menos eu.
Cadu, assustado: Você não tá pegando um pouco pesado? É
claro que essa barra pesa, e pra qualquer um. Mas ela gosta tanto de você...
Você sabe que bastante cara lá do colégio já foi atrás dela.
Guilherme: Eu também queria ter essa certeza. Mas eu não
consigo enxergar todo esse gostar dela por mim.
Elis, que ouvia tudo por trás da porta e já soluçava, sai
do local.
Cadu continua: Você pensa terminar com ela, é isso?
Guilherme: Não... Não. Apesar da insegurança, apesar de
estar em FM e ela em AM, eu não suportaria o fim disso tudo... Não agora. Nem
sei se algum dia.
Cena
5. Casa de Teodora – Quarto dela – Quase Noite
Elis e Teodora estão sentadas na cama, encostadas na
cabeceira.
Teodora: Quer dizer que eu me equivoquei e não teve bolo
nenhum? Foi só um desencontro?
Elis completa: É, mas o pior é que nem é essa a questão.
Eu acabei indo no hospital...
Teodora: Depois de desistir do campeonato, ainda bem que
foi.
Elis confessa: Mas sabe que foi só um impulso? Eu juro,
Teodora, juro, que se não fosse o Beto, eu teria ficado. O time não merecia
perder por minha causa, mas aquilo tudo que o Beto me falou... Acho que já
tinha passado da hora de esclarecer as coisas, sabe? Eu quero me comprometer
com o time, claro! Mas não com aquele jeito abusado dele.
Teodora tenta confortá-la: Dizem que tudo tem uma parte
ruim, né?
Elis se entristece: Inclusive essa minha ida impensada no
hospital. Você acredita que eu cheguei e acabei do Guilherme com o Cadu. Ele
parecia tão amargurado... Tão diferente do que ele é. E lembra do que eu te
falei mais cedo? Sobre Pois é, essa conversa que eu ouvi foi como um replay da
nossa. A diferença é que me doeu mais... Porque eu achar que é assim que ele
pensa, era uma coisa. Agora saber que é realmente assim que ele enxerga as coisas,
é muito pior.
Teodora: E você falou com ele sobre isso? Quer saber, não
me responde. Cansei dessa nossa troca de papéis. Vamos voltar para o tempo em
que era eu que falava de mais e você gargalhava ao invés de chorar. Pode ser?
Elis aceita o convite de se animar.
E
amanhece...
Cena
6. Casa de Olívia e Maurício – Sala de Jantar – Manhã
Eles tomam seu café da manhã.
Maurício comenta: Não vi a Elis em casa. Você não vai me
dizer que ela dormiu no Guilherme, outra vez... Ou vai? Ter desistido do jogo
já foi o bastante.
Olívia: Não, ela me ligou avisando que posaria na casa
daquela amiga, Teodora. Mas você não vai acreditar no que eu estive pensando...
Olívia, porém, é interrompida pela secretária eletrônica.
A voz feminina vem do telefone: Você tem uma nova
mensagem. Espere três segundos para ouvir sua mensagem – eles o fazem.
Voz de
Marina, ao telefone: Maurício, eu sei que nós tínhamos combinado de você me
ligar respondendo... Mas eu não aguento mais essa tortura. Você vai ou não
ajudar a nossa filha?
Olívia não acredita no que ouve: Filha, Maurício? Você
tem outra filha?
Fim
do segundo capítulo.


Mais da saga de Elis! Agora que já sabe de Lana, ela logo entra na vida de Maurício. E na de Elis, também.
ResponderExcluirEspero que tenham gostado!
O terreno está sendo preparado para uma grande mudança na vida de todos com a chegada de Marina e sua filha. O que pode ser mais um problema para Elis, que já está cheia deles, mas gostei da decisão dela abdicar o jogo para ir ver o namorado. A personagem é bem complexa e os diálogos da web estão muito bem construídos! Parabéns. Até o próximo capítulo
ResponderExcluirA chegada da Lana vai sim incomodar a Elis. A Olívia, também!
ExcluirE agradeço! Tentei deixá-la livre de maniqueísmo, composta de erros e acertos. Até lá!
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirPensei que a Elis iria optar por jogar no campeonato, me surpreendi.
ResponderExcluirE a chegada da Lana parece estar bem próxima... Quero ver como a Olivia e a Elis irão lidar com isso.
Pensei que a Elis iria optar por jogar no campeonato, me surpreendi.
ResponderExcluirE a chegada da Lana parece estar bem próxima... Quero ver como a Olivia e a Elis irão lidar com isso.
Pensei que a Elis iria optar por jogar no campeonato, me surpreendi.
ResponderExcluirE a chegada da Lana parece estar bem próxima... Quero ver como a Olivia e a Elis irão lidar com isso.
Fico feliz que tenha tido uma surpresa! A revolta da Olívia que é maior... No início.
ExcluirObrigado por comentar!
Achei que a Elis iria continuar no campeonato. Parece que deu ruim pra ela. Gostei da cena 3, muito bem escrita, parabéns. E coitada da Elis, foi lá para apoiar o namorado, deixou de lado a chance do campeonato e ainda ouve aquilo. Que cruel! Eita, que ganchão!! Maurício numa saia justa. Parabéns, João. A web está ótima.
ResponderExcluirA história de Elis e Guilherme anda bastante até que Lana interfira. Talvez sejam eles mesmo os culpados.
ExcluirObrigado, e fico contente! Marina e Maurício também têm contas pra acertar.
Eu espero que tudo que a Elis fez em prol do namorado seja aproveitado por ele. Gostei da chegada da Lana e estou afim de ver o Beto sofrer. Pessoa mais ambiciosa .
ResponderExcluirGuilherme adora a Elis, acho que aproveitará sim!
ExcluirSobre o Beto, ele causa dor antes de senti-la. Mas nem o intérprete alivia sua raiva? Hahaha, obrigado por acompanhar!