terça-feira, 25 de agosto de 2015

Somos Tão Jovens/ Viva Teu Momento - Capítulo 02


Somos Tão Jovens, capítulo dois:

Cena 1. Ginásio Municipal – Tarde

No ginásio, Beto e Elis estão cara a cara.

Beto: Eu aposto que qualquer uma daquela quadra daria o mundo pra estar no seu lugar. Ou você perde tempo com esse namorico, ou vai lá e vence essa partida. A escolha tá nas suas mãos. – ele segura no braço de Elis.

Olívia acompanha tudo.

Elis, desconsertada: Que isso, Beto? Você nunca falou comigo nesse tom...

Beto: Porque nunca foi preciso. Porque você sempre foi uma menina determinada, porque você sempre soube o que queria. Mas agora, agora eu sinceramente...

Olívia, os interrompe, tentando arbitrar a discussão: Deixa, Beto, vocês não precisam prolongar essa discussão – ela se vira para a jogadora – Minha filha, tenta entender que essa não é mais uma simples partida pra você. Pode ser significativa, pode te levar pra as olimpíadas, Elis!

Elis não cessa: Desculpa, mãe. Mas antes de tentar entender todo mundo, eu preciso entender o que eu sinto. E isso eu só vou conseguir falando com o Guilherme.

Beto persiste: Não! Pelo amor de Deus, menina, você tá ouvindo o que você tá falando? Você vai desperdiçar uma chance de classificação pra um mundial de vôlei só por um namorico? É isso mesmo?

Elis tira seu braço das mãos do treinador, o encarando: Eu não consigo jogar, Beto. Eu não consigo focar em nenhuma outra coisa que não seja o Guilherme, o meu namorado. Agora, por favor, sai da minha frente.

Beto: Elis, eu vou te dar mais uma chance. Entra naquela quadra, saca aquela bola, VENCE AQUELE JOGO!

Elis retruca: Você mesmo não disse que eu sempre soube o que queria? Agora, o que eu quero é ver o meu namorado – ela se vira – Dá licença.

Beto faz uma última tentativa, em vão: Elis, volta aqui! Elis!

Mas a garota não dá meia volta. Ela corre para fora do ginásio.

Pouco tempo depois...

Cena 2. Apartamento de Beto – Tarde

Beto entra frustrado na cozinha. Nela, está seu filho, o Zeca.

Beto puxa uma cadeira, bruscamente, onde se senta: Olha, ainda bem que eu sou muito bem remunerado pelo que eu faço. Porque ter que aturar adolescente imatura, que se acha dona do mundo, só por um preço muito alto.

Zeca está sentado à mesa, lanchando: Quê que houve dessa vez, pai? Perdeu o jogo?

Beto: Não, eu não perdi nada. Quem perdeu foi a tosca da Elis, que além de uma ótima oportunidade, perdeu a sanidade. Francamente, eu nunca imaginei que ela fosse fazer algo do tipo.

Zeca, tentando desviar do assunto: Poxa, pai. Na verdade eu nem o que tá acontecendo, mas você não acha que está exagerando?

Beto é rude: Exagerando? É isso mesmo, Zeca? Quer dizer que eu tenho um defensor da garota dentro de casa e não sabia? Eu sei que você gosta dela, e não me importo. Mas eu não tolero que você do lado de...

Zeca o interrompe: Pai, eu só queria te ajudar. Queria te ouvir, quem sabe assim você sufocasse um pouco essa raiva toda. Mas tá impossível. Eu é que não aceito que você atire todas essas pedras em mim como se eu fosse o culpado – ele se levanta – A Elis fez sabe-se lá o quê, só que eu não tenho nada a ver com isso. Agora, eu prefiro subir pro meu quarto.

E segue o caminho para fora do cômodo.

Beto: Isso! Vai lá! Vai lá pro seu refúgio dos contos de fadas, eu não esperava mesmo que você aguentasse ouvir a verdade.

O treinador balança a cabeça, ainda raivoso.

Cena 3. Casa de Olívia e Maurício – Sala Principal – Ainda pela tarde

Maurício se lembra da conversa que teve há poucos minutos, no telefone.

Marina: A gente se amava, Maurício. Se não for pela nossa filha, faz isso por mim!

Maurício, rancoroso: Por você?! Pela mulher que me escondeu uma filha, durante todos esses anos, e que agora vem, de uma hora pra outra, me dizer que ela existe, e que tá doente?

Marina suplica: Não olha pra doença, Maurício. Olha pra tanta coisa linda que a gente viveu, olha pra tanta coisa boa que ainda pode acontecer se você aceitar ceder esse transplante.

Maurício: É, você só precisa de mim nos momentos difíceis, não é? Sempre foi assim. Agora, eu não pude ver a filha crescer. Você ficou presa nesse silêncio há tanto tempo... Por que agora foi diferente? Por que você não tem mais a quem recorrer?

Marina chora: PORQUE AGORA A NOSSA FILHA TÁ COM CÂNCER, MAURÍCIO! Meu Deus, eu tenho mais à que apelar. Você é minha última esperança... Eu só te peço um pouco de compaixão.

Maurício: Eu vou pensar. Mas não por você, não por alguém que pede compaixão sendo que nunca teve. Eu vou pensar pela nossa filha, porque ela não tem culpa de quem você é, das escolhas que você tomou.

Ele desliga o telefone – fim da lembrança.

Os pensamentos de Maurício, que encara um dos objetos da estante, enquanto está sentado no sofá, são interrompidos por sua esposa, que chega.

Olívia: Maurício, meu amor – ela se senta na borda do sofá – Você parece tão preocupado... E isso não é de hoje. A gente sempre foi franco um com o outro. Nunca escondeu nenhum tipo de segredo... Por que quebrar esse pacto agora?

Maurício, surpreso: Eu não tô escondendo ou rompendo nada, Olívia. Deve ser impressão sua.

Olívia desconfia: Mesmo?

Maurício ri, sem graça, e inventa: Claro, é só uma pilha de assunto chato do trabalho. Mas eu logo resolvo isso. Agora me fala do jogo. Cadê a fita que eu te pedi?

Olívia balança a cabeça negativamente: Eu juro que não sei que motivo eu te dei pra não confiar mais em mim. Mas assim que você se sentir preparado pra se libertar desse segredo, eu também vou estar pronta pra ouvir – ela se levanta – Agora eu vou tomar um banho. Sobre o jogo, a gente pode falar depois.

E ela sai da sala. Maurício suspira, ainda pensativo.

Cena 4. Hospital São Vicente – Quarto de Guilherme – Fim de Tarde

Alguém bate na porta.

Guilherme vibra: Elis... Meu amor, eu não acredito que você veio.

Cadu entra no quarto: Poxa, cara. Eu sei que a gente é bem amigo, mas... Meu amor é um pouco demais. Você não acha?

Guilherme não entra na brincadeira: Olha, eu não tô com ânimo pra piada.

Cadu se senta na cadeira próxima da cama: Que isso? Eu só vim aqui te visitar, não precisa ficar na defensiva. Mas vai, me diz. Qual é o motivo da rebeldia? Espera aí, antes 
me deixa adivinhar... Elis?

A jogadora de vôlei, que estava prestes a entrar no quarto, decide parar assim que ouve seu nome.

Guilherme desconversa: Eu sei que não estou me saindo como a melhor das companhias, mas eu juro que tento...

Cadu: Nem começa a mudar de assunto, Guilherme. Me fala de uma vez o que é que aconteceu entre você e a Elis.

Guilherme confidencia: A verdade é que eu desaponto muito com ela. Aí eu nem sei se vale a pena investir em empresa falida.

Cadu: Você tá dando por vencida uma guerra que mal começou... Mas se você puder ir direto ao ponto...

Guilherme: A verdadeira paixão dela é o vôlei, entende? Eu não vou negar que ela tenta, mas enquanto uma parte dela quer estar aqui, comigo, a outra tá sempre avisando que tem campeonato amanhã, partida na semana que vem... Nem sei como eu pensei que ela viesse, eu sou sempre a segunda opção na vida da Elis. O plano B, sabe?

Cadu encara o amigo: Não sei, eu juro que não. E você também. Poxa, Gui, é um campeonato importante, que pode classificar ela pra as Olimpíadas!

Guilherme: Disso eu sei. Aliás, disso eu já cansei de saber. Falando sério, tudo na vida da Elis é importante, menos eu.

Cadu, assustado: Você não tá pegando um pouco pesado? É claro que essa barra pesa, e pra qualquer um. Mas ela gosta tanto de você... Você sabe que bastante cara lá do colégio já foi atrás dela.

Guilherme: Eu também queria ter essa certeza. Mas eu não consigo enxergar todo esse gostar dela por mim.

Elis, que ouvia tudo por trás da porta e já soluçava, sai do local.

Cadu continua: Você pensa terminar com ela, é isso?

Guilherme: Não... Não. Apesar da insegurança, apesar de estar em FM e ela em AM, eu não suportaria o fim disso tudo... Não agora. Nem sei se algum dia.

Cena 5. Casa de Teodora – Quarto dela – Quase Noite

Elis e Teodora estão sentadas na cama, encostadas na cabeceira.

Teodora: Quer dizer que eu me equivoquei e não teve bolo nenhum? Foi só um desencontro?

Elis completa: É, mas o pior é que nem é essa a questão. Eu acabei indo no hospital...

Teodora: Depois de desistir do campeonato, ainda bem que foi.

Elis confessa: Mas sabe que foi só um impulso? Eu juro, Teodora, juro, que se não fosse o Beto, eu teria ficado. O time não merecia perder por minha causa, mas aquilo tudo que o Beto me falou... Acho que já tinha passado da hora de esclarecer as coisas, sabe? Eu quero me comprometer com o time, claro! Mas não com aquele jeito abusado dele.

Teodora tenta confortá-la: Dizem que tudo tem uma parte ruim, né?

Elis se entristece: Inclusive essa minha ida impensada no hospital. Você acredita que eu cheguei e acabei do Guilherme com o Cadu. Ele parecia tão amargurado... Tão diferente do que ele é. E lembra do que eu te falei mais cedo? Sobre Pois é, essa conversa que eu ouvi foi como um replay da nossa. A diferença é que me doeu mais... Porque eu achar que é assim que ele pensa, era uma coisa. Agora saber que é realmente assim que ele enxerga as coisas, é muito pior.

Teodora: E você falou com ele sobre isso? Quer saber, não me responde. Cansei dessa nossa troca de papéis. Vamos voltar para o tempo em que era eu que falava de mais e você gargalhava ao invés de chorar. Pode ser?

Elis aceita o convite de se animar.

E amanhece...

Cena 6. Casa de Olívia e Maurício – Sala de Jantar – Manhã

Eles tomam seu café da manhã.

Maurício comenta: Não vi a Elis em casa. Você não vai me dizer que ela dormiu no Guilherme, outra vez... Ou vai? Ter desistido do jogo já foi o bastante.

Olívia: Não, ela me ligou avisando que posaria na casa daquela amiga, Teodora. Mas você não vai acreditar no que eu estive pensando...

Olívia, porém, é interrompida pela secretária eletrônica.

A voz feminina vem do telefone: Você tem uma nova mensagem. Espere três segundos para ouvir sua mensagem – eles o fazem.

Voz de Marina, ao telefone: Maurício, eu sei que nós tínhamos combinado de você me ligar respondendo... Mas eu não aguento mais essa tortura. Você vai ou não ajudar a nossa filha?

Olívia não acredita no que ouve: Filha, Maurício? Você tem outra filha?


Fim do segundo capítulo.
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12 comentários:

  1. Mais da saga de Elis! Agora que já sabe de Lana, ela logo entra na vida de Maurício. E na de Elis, também.
    Espero que tenham gostado!

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  2. O terreno está sendo preparado para uma grande mudança na vida de todos com a chegada de Marina e sua filha. O que pode ser mais um problema para Elis, que já está cheia deles, mas gostei da decisão dela abdicar o jogo para ir ver o namorado. A personagem é bem complexa e os diálogos da web estão muito bem construídos! Parabéns. Até o próximo capítulo

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    1. A chegada da Lana vai sim incomodar a Elis. A Olívia, também!
      E agradeço! Tentei deixá-la livre de maniqueísmo, composta de erros e acertos. Até lá!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Pensei que a Elis iria optar por jogar no campeonato, me surpreendi.
    E a chegada da Lana parece estar bem próxima... Quero ver como a Olivia e a Elis irão lidar com isso.

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  5. Pensei que a Elis iria optar por jogar no campeonato, me surpreendi.
    E a chegada da Lana parece estar bem próxima... Quero ver como a Olivia e a Elis irão lidar com isso.

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  6. Pensei que a Elis iria optar por jogar no campeonato, me surpreendi.
    E a chegada da Lana parece estar bem próxima... Quero ver como a Olivia e a Elis irão lidar com isso.

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    1. Fico feliz que tenha tido uma surpresa! A revolta da Olívia que é maior... No início.
      Obrigado por comentar!

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  7. Achei que a Elis iria continuar no campeonato. Parece que deu ruim pra ela. Gostei da cena 3, muito bem escrita, parabéns. E coitada da Elis, foi lá para apoiar o namorado, deixou de lado a chance do campeonato e ainda ouve aquilo. Que cruel! Eita, que ganchão!! Maurício numa saia justa. Parabéns, João. A web está ótima.

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    1. A história de Elis e Guilherme anda bastante até que Lana interfira. Talvez sejam eles mesmo os culpados.
      Obrigado, e fico contente! Marina e Maurício também têm contas pra acertar.

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  8. Eu espero que tudo que a Elis fez em prol do namorado seja aproveitado por ele. Gostei da chegada da Lana e estou afim de ver o Beto sofrer. Pessoa mais ambiciosa .

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    1. Guilherme adora a Elis, acho que aproveitará sim!
      Sobre o Beto, ele causa dor antes de senti-la. Mas nem o intérprete alivia sua raiva? Hahaha, obrigado por acompanhar!

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